Deslocados, mas sem desânimo: Como a Equipe do Sudão Reconstruiu a Esperança com um Robô Chamado Azza

Composta por estudantes refugiados e mentores que vivem em nove países, a Equipe Sudão superou imensos obstáculos para representar sua nação no cenário mundial.

Sob um céu estrelado, Maab e seu irmão Mostafa estavam na fronteira entre o Qatar e a Arábia Saudita, com o ar do deserto calmo e pesado ao redor deles. Ao longe, faróis perfuravam a escuridão. Seu mentor havia viajado para encontrá-los, levando o pacote que era a chave da jornada deles - o kit de robôs de que precisavam para a Copa do Mundo de 2024 FIRST Global Challenge (FGC) em Atenas.

"Nós nos encontramos literalmente na fronteira, no meio do deserto", disse Maab, um estudante da FIRST Global Team Sudan, lembrou. "Recebemos o kit dele quatro dias antes da competição."

Eles não tinham um laboratório, um espaço de trabalho compartilhado, nem mesmo uma equipe presencial. No entanto, quando o pacote foi trocado de mãos, eles tinham certeza de uma coisa: encontrariam uma maneira de competir. Não havia tempo a perder.

Uma equipe espalhada pelo mundo

De mais de 20 alunos, eles ficaram com apenas dois.

A guerra civil havia devastado sua terra natal, deslocando mais de 11,5 milhões de pessoas, inclusive os alunos e mentores da Equipe Sudão. Eles agora estavam espalhados por nove países - Sudão, Arábia Saudita, Egito, Uganda, Catar, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos.

"O fato desolador é que o Sudão que conhecíamos antes da guerra não existe mais", disse Maab, de 18 anos.

"Fomos forçados a fugir", disse outro membro da equipe em seu vídeo de perfil. "Perdemos nossos pertences e equipamentos, mas não perdemos nossa esperança nem nossa ambição."

No Sudão, a guerra fez mais do que deslocar famílias - ela fechou o sistema educacional. Milhões de estudantes foram forçados a abandonar seus estudos. Mesmo assim, a Equipe do Sudão permaneceu determinada a levar sua bandeira para Atenas contra todas as probabilidades.

"Somos uma família trabalhando em prol de um objetivo comum", disse a equipe em um post. "Sabemos que o sucesso exige sacrifício, que a força vem da união e que grandes conquistas começam com pequenos sonhos. Estamos aqui para dar o nosso melhor, para ir além dos limites e para provar que o trabalho em equipe pode superar qualquer obstáculo."

Sem poder se encontrar pessoalmente, a preparação para a competição apresentou desafios únicos para a equipe.

"Nossos preparativos foram basicamente sobre o Zoom", explicou Maab. "Fizemos cursos de mecânica e eletrônica para ficarmos na mesma página. Depois, em design e modelagem 3D. Depois disso, criamos o projeto básico do robô."

Mas a equipe não poderia construí-lo até receber o kit do robô.

A jornada para a competição

Como refugiados, garantir vistos para os membros da equipe era quase impossível. Vários alunos não tinham nem como se candidatar, enquanto outros que o fizeram foram rejeitados.

Para Maab e Mostafa, eles tiveram que viajar para a embaixada de um país vizinho para obter o seu.

Naquela noite, ao voltarem para casa, eles se encontraram com o mentor para pegar o kit que acabara de chegar. Eles o embalaram em seus pertences e se prepararam para a viagem à Grécia. Eles teriam que montar o robô pela primeira vez quando chegassem à competição.

"Meu irmão e eu somos os únicos estudantes que conseguiram chegar aqui [em Atenas]", disse Maab.

Foi durante uma escala no Cairo que eles encontraram várias outras equipes a caminho da competição, que ofereceram seu apoio.

"Houve um grande apoio de todos, especialmente da Equipe Palestina", disse Maab.

"Antes de virmos, pensei que ficaria sozinho, mas não foi isso que aconteceu", compartilhou Mostafa. "Adoro o fato de que, no FGC, não se trata apenas de uma competição, não é apenas uma corrida para ter um robô bonito ou para vencer. Trata-se de compartilhar conhecimento e experiências."

Do projeto virtual à realidade

Com a ajuda de seus concorrentes, a Equipe do Sudão montou seu robô no local da competição em Atenas. Eles o batizaram de Azza, que significa "honrado" ou "digno" em árabe, para simbolizar a força do povo sudanês.

"Estamos tentando correr, correr, correr, para fazer o trabalho de três meses em apenas três dias", disse Maab.

"Na primeira partida, nem sequer havíamos testado nosso robô antes", admitiu Mostafa. "Nem sequer jogamos nenhuma partida de treino porque estávamos concentrados em consertar uma coisa: nosso elevador."

Quando chegou a hora da primeira partida, eles colocaram Azza ao lado dos membros da aliança de Guiné e São Tomé e Príncipe. Mas quando a campainha tocou, o robô deles não ligou.

Eles perderam a partida. E as três partidas seguintes. A cada vez, eles faziam alterações.

Mas "depois da quarta partida, fiquei muito irritado", disse Mostafa. "Então fui para o nosso box e comecei tudo do zero."

Enquanto Mostafa desmontava o robô, perguntaram-lhe: "É mais fácil construir ou desmontar?".

"Emocionalmente ou fisicamente?", ele respondeu com um sorriso. "Emocionalmente, é muito difícil. Eu estou tão triste porque, eu estou dizendo, desculpe Azza, a senhora me ajudou demais, eu não posso levar a senhora assim. Talvez eu chore agora, quem sabe?", disse ele, ainda sorrindo.

Sua decisão valeu a pena. A equipe do Sudão venceu a quinta partida, bem como cinco das sete partidas restantes. Entre as 180 equipes que competiram, a equipe ficou em 77º lugar.

STEM como um símbolo de resiliência

"No Sudão, estamos enfrentando muitos problemas", compartilhou Mostafa. "Temos guerra, problemas de alimentação, de eletricidade. Mas queremos dizer ao mundo que somos fortes o suficiente, somos inteligentes e temos tudo para vir aqui, participar e dizer ao mundo que somos capazes."

Maab refletiu sobre o significado mais profundo de sua jornada. "O que construímos aqui é mais do que apenas um robô. Acho que ele é um símbolo de resiliência e de fazer o que quer que seja. Apesar de tudo o que está acontecendo, estamos aqui", disse ela. "Não penso nisso como dificuldades ou desafios, acho que faz parte da jornada. Vale muito a pena porque não é apenas a minha experiência - é a da minha mãe, a do meu pai, a de todos que nos ajudaram."

Quando a competição terminou, Maab e Mostafa levaram consigo mais do que apenas seu robô. Eles levaram o conhecimento, as conexões e a inspiração para levar a educação STEM a mais jovens sudaneses.

"Quero passar essa experiência adiante porque ela é realmente preciosa e bela", disse Maab. "Acho que toda criança merece ter o direito de ir em frente e ampliar seus horizontes."

Para Mostafa, a jornada trouxe uma lição poderosa: "Não estou apenas representando meu país. Acho que também estou representando o poder da educação. Se o senhor acreditar em si mesmo e se esforçar cada vez mais, talvez chegue a um lugar que, mesmo na sua imaginação, não imaginava."

Na Copa do Mundo de 2024 FIRST Global Challenge, a Equipe Sudan se destaca como um farol de esperança e resiliência, provando que, mesmo em meio à adversidade, os jovens podem superar desafios e que, independentemente dos obstáculos, o conhecimento, a determinação e a união podem forjar um caminho a seguir.

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